trouxa

Uma pessoa parada olhando para o seu celular. Abrir e fechar a janela daquele contato no Whatsapp. Tem cena mais ridícula?

Quem nunca?

Quem nunca foi a pessoa que não permaneceu? A que falou da boca pra fora, a que disse que ia e não foi, a que achou que era melhor se proteger, a que construiu um muro ao invés de uma ponte?

Quem nunca foi a pessoa que fica abraçada no travesseiro ouvindo Los Hermanos e tentando entender o que se passa na cabeça da pessoa que partiu sem muitas explicações – muitas vezes, nenhuma. Quem nunca encheu a cara e o celular funcionou como arma, matando o seu amor próprio e garantindo a piada no grupo no dia seguinte, pra reforçar sua vergonha? Quem nunca passou o dia com o coração apertado, repetindo mentalmente o velho mantra “vai passar” e até passar o chororô vinha a cada choque de realidade que dizia “cara, já era”?

Todo mundo já jogou nos dois campos. Já foi a pessoa que partiu sem olhar pra trás e já foi a pessoa que ficou sentada no degrau da escada tragando um cigarro pra disfarçar o azedume da boca observando a partida. Acontece que reciprocidade é lindo, mas não se aplica ao amor…

A gente pode ser reciproco no tratamento respeitoso, na consideração, no cuidado de não magoar quem dorme e acorda pensando na gente, mas a gente não pode amar o outro somente porque ele nos ama. E isso é de uma tristeza imensurável. Isso é o dilema da vida de todo mundo, sem exceção.

É uma equação que nem sempre fecha. Fazer o quê? Pra isso existe o blues, o sertanejo universitário, as garrafas de Smirnoff e Heineken. As de vinho já pedem companhia afetiva e voltaríamos a olhar o celular e fechar e abrir a janelinha do Whatsapp.

Quem nunca?

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Rossely Rodrigues, atende por Secéu desde que se conhece por gente. Gaúcha, geminiana que não sabe se acredita em signos, formada em Letras Português Inglês pela FURG, escritora amadora - com muito amor, mesmo! 25 anos de muita história pra contar e outras que é melhor deixar pra lá.