depressão


Isto é uma carta aberta não só para você, mas para todos os homens que um dia levantaram a voz para suas esposas, namoradas, irmãs ou amigas. Para todos vocês, que não só machucaram a nossa pele, mas a nossa alma. Para vocês, que conseguem dormir todas as noites, enquanto nós nos perdemos em pesadelos. Isto é uma carta pra você, que me quebrou ao meio sem precisar sequer quebrar algum osso do meu corpo. Pra você, que me deixou em um perfeito caos.

Eu achei que era amor.

Você não pode me culpar por não ter notado os sinais, afinal, você era de confiança, não era? Você me fazia pensar que você nunca, em hipótese alguma, iria desejar o meu mal. Você só queria meu bem, não queria? Você queria me proteger. Seus gritos que ecoavam pela sala e que me assombram até hoje, eram apenas gritos de um cara que dizia que eu precisava “entender” que era apenas preocupação. Você me fez pensar que você se preocupava.

Você me fez criar uma dependência emocional que eu nunca achei que fosse conseguir superar – se é que consegui. Você me fez pensar que se eu não tivesse você, eu ficaria sozinha. Você me fez sentir sozinha. Você me tornou a própria solidão enquanto me enchia de beijos. Você me manipulou e me colocou na sua mão sabendo o que estava fazendo. Você queria uma boneca, uma submissa, uma mulher sem sonhos e sem vida.

Eu não sou essa mulher e nunca me tornarei.

Você não conseguiu me transformar em uma fantoche de pano, apesar de ter mesmo me amarrado em um monte de cordas. Você me acorrentou psicologicamente à você de uma forma invisível, porém palpável. Eu não podia ver, mas eu sentia todas as vezes em que você brincava comigo.

Mas não era brincadeira.

Eu achei que era amor.

Você me fez acreditar que seus toques brutos eram carícias, que você estava apenas olhando por mim. Você era tão bom no que fazia, que depois de todas as brigas e de todo o meu choro incontrolável, eu ainda podia acreditar que você, meu amor, iria mudar. Você dizia isso, se lembra? Você dizia que iria ser tão maravilhoso para mim e que viveríamos tantas coisas incríveis, que eu acreditava.

Não era amor. 

Eu não te amava, você apenas me fez acreditar que sim. Me fez pensar que eu precisava de você, que eu queria estar com você, que era uma escolha MINHA. Eu nunca tive uma escolha, você me arrancou qualquer chance e direito de me pronunciar e de me defender. Você me agrediu das maneiras que você bem entendeu. Você rasgou minha essência, roubou minha inocência e manteve a aparência.

Você me destruiu, e quando não lhe serviu mais, deu as costas, acenou um adeus e se foi. Eu me perdi de mim, achei que era o fim do mundo. Eu não poderia viver sem meu abusador, poderia? Afinal, era esse o papel que você desempenhava na minha vida. Você sugava minhas energias e me entupia de lixo, mentiras e mágoas. Você me deixou em um estado apático. Eu não sabia mais o que vestir, o que pensar, o que falar. Eu não sabia mais sair.

As cordas não apertavam meus pulsos e meus tornozelos. Seus braços não apertavam a minha cintura – ou o meu pescoço. Eu estava sem nada, e achei que era porque sua ausência me fazia falta. Eu sentia sua falta, senti falta do relacionamento abusivo e doentio no qual você me manteve. Eu não percebi que na verdade, eu estava sem nada mesmo quando estava com você.

Não era amor.  Eu estava livre de você, mas não dos arranhões profundos que você deixou no meu interior.

Você destruiu todos os meus relacionamentos seguintes. Eu tinha medo. Eu nunca nem havia percebido que eu tinha medo até você ir. Mas eu tinha, eu me tremia em pavor perto de qualquer homem que ousasse dizer que poderia me tratar bem. Eu não me sentia digna de ser amada. Você foi culpado. Você me fez não me sentir pura. Eu me sentia suja demais pra me aventurar em algo saudável pra mim.

Eu me acostumei com as cordas. Minto, VOCÊ me obrigou a me acostumar. Eu tinha medo da minha casa ensolarada, eu queria a escuridão que você trazia consigo. Eu achei que nunca mais fosse conseguir deixar que alguém me amasse, ou fosse conseguir me olhar no espelho e sentir que eu mesma poderia me amar.

Você me fez sentir que eu não poderia me amar. Tinha algo muito errado comigo, não tinha?

Demorou, eu precisei ler e ouvir muitas vezes todos os depoimentos de mulheres que haviam passado por uma situação parecida. Eu precisei ouvir das minhas amigas. Eu precisei de muito tempo até entender e poder enxergar que não era amor, que era um abuso. Não tinha nada de errado comigo, e sim com você.

Todas as vezes em que você me jogou pra baixo, me diminuiu e me menosprezou ainda existem dentro de uma caixinha guardada em mim. Essas lembranças não desapareceram, as dores que você provocou na minha alma volta e meia ainda me perturbam, me beliscam e me deixam refém, como você fez.

Mas eu agora enxergo quem você é. Eu entendo que nunca foi minha culpa, que eu não poderia fazer nada, que eu estava presa. Eu entendo que eu sou livre, forte e que posso ser o que eu bem entender.

Essa desconstrução não foi fácil e ainda está em processo. Estou me reerguendo aprendendo a não abaixar a cabeça todas as vezes em que ver meu reflexo. Meu cabelo fica lindo solto e eu posso usar batom vermelho – ou roxo. Minha pele não precisa de cicatrizes. Eu não preciso de você.

Eu posso não ser mais inocente, mas sou independente.

O único favor que você me fez foi ter ido embora. 

Ps: se você se identificou com o texto e de alguma forma sente que se encontra em um relacionamento abusivo, denuncie. A culpa nunca será sua.

DENÚNCIA: Central de atendimento a mulher, disque 180. Se liberte.

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19 anos de muita história para contar, autora do blog duzentaslinhas.com.br, residente do país das maravilhas e escritora nas horas vagas - nas outras também. Geminiana, sonhadora, avoada, estudante de psicologia, especialista em matérias impossíveis e completamente apaixonada por pessoas, flores e tudo que há de belo no mundo. Acredita em fadas, sereias e em um amor que cura todos os males. Quer conversar comigo pelas redes sociais? Fácil, só me chamar em @duzentaslinhas  Ou quer desabafar secretamente? Me chama no snap duzentaslinhas ou pode me mandar sua história pelo e-mail duzentaslinhas@gmail.com (juro que sou boa em conselhos)  


Escute enquanto lê:


Você já teve aquela impressão de que você era difícil demais de amar? Pois é. Eu sinto isso todos as vezes em que tento me relacionar com algum indivíduo. Tem aquela coisa típica de primeiro encontro, vocês sabem. Ele te leva pra sair, você se arruma como se fosse encontrar seu príncipe encantado e no fim, não é nada demais – o que eu até prefiro, para ser sincera. Vocês vão pra um barzinho qualquer, tomam um cerveja barata só para jogar uma conversa fora, falam sobre seus gostos, seus antigos relacionamentos, seus sonhos e sua família. Vocês riem, riem muito. Riem porque ele é engraçado e você é mais ainda. Você pedem algo pra comer e a a noite passa sem você notar.

Vocês dividem o uber para casa, as vezes ele te convida para dele, as vezes você volta para sua. Se você voltar pra sua casa depois de um encontro daqueles, você liga pras suas amigas, manda mensagem, faz até facetime “AMIGA, VOCÊ NÃO SABE, ENCONTREI MINHA ALMA GÊMEA” “AMIGA, ELE É PERFEITO! DESSA VEZ É SÉRIO”.

Mas não é. Vocês saem mais algumas vezes, e não dá em nada. Acho que ele só queria te levar para cama. Vocês discutem, param de se falar, se excluem das redes sociais e você chora no ombro de alguém.

Ninguém diz “eu te avisei” para um coração partido procurando por um amor. Eles só te abraçam e prometem que você é boa demais, inteligente demais, legal demais e que ELE não te merecia. É o que os amigos fazem e você os ama por cada palavrinha que acolhe seu corpinho frágil.

Mas adivinha? Você volta pro tinder. É, sabe o tinder, aquele aplicativo de namoros que mais se parece um cardápio humano? Esse! Você volta para lá, porque a vida da boate te cansou, porque os beijos vazios te magoam quando você chega em casa. Porque você não liga pra aquele cara bêbado que tentou agarrar você sem nem saber quem você é. Você vai procurar um amor.

Eu nem preciso dizer que você acha, né? A conversa de vocês bate de cara. Vocês começam a virar amigos íntimos, contam piadas um pro outro, riem da vida. Resolvem sair. Seu coração parece que vai pular pela boca – ou de um precipício. Você não liga, nem um pouco. Pede ajuda para se arrumar. Coloca um vestido arrumadinho e vai pro balada mix encontrar o fulano. A conversa é profunda, você olha nos olhos dele e AGORA você tem certeza. MANO, É ELE! É ele o cara da sua vida, o que você quer pra você. Vocês vão no cinema, assistem “Cidades de papel”, ele te conta o quanto esse filme lembra ele dos tempos em que ele morava em Miguel Pereira, você presta atenção, é claro. Você fala da sua vida também das suas séries preferidas, do que você já passou e do que pretende passar.

Ele te beija. Caralho, que beijo. Você sente que vai flutuar, ele também.

Vocês engatam nessa ficada séria, onde ninguém pode ficar com ninguém. Começam a se ver mais, a se curtir mais, você tenta ser reservada mas não tanto, começa a se abrir pra ele aos pouquinhos. Mas quer saber? Ele começa a dizer que VOCÊ não demonstra seus sentimentos, que você não é carinhosa, que você é o problema. Você acredita nele. Você chora. Seus amigos te dizem que não, que você não é essa garota que ele insiste em dizer que você é. Não é culpa sua, caralh*!

Vocês terminam, você não esquece as palavras dele. Afinal, será que eu sou mesmo uma incógnita? Será que eu não deixo eles me conhecerem? O que tem de errado comigo?
O sexo foi ruim? Foi o meu corpo? Será que eu não sou bonita o suficiente? Por que ele me tratou que nem lixo depois de dizer que gostava taaaaanto de mim?

Passa um BOM tempo. Você esquece dele. Você muda, amadurece, passa por um monte de coisas novas. Você conhece outro cara. Ele é legal, engraçado, despojado, viajado, mas não quer nada sério. Vocês ficam, mas não dá em nada. Você quer namorar. Então, você perde as esperanças. Deixa a vida te levar, para de procurar coisa em buraco vazio.

Você acha. Um match despretensioso te leva até ele. Ele é diferente. Ele é sarcástico, o humor dele te faz sorrir no meio de madrugada, vocês trocam mensagens o dia inteiro por um loooongo tempo. Você conta da sua vida, afinal.. você precisa demonstrar mais, não foi o que o Outro falou? Você faz isso. Você age como si mesma. Você come besteira na frente dele, se suja, ri das suas loucuras, conta os seus problemas, conta as suas dificuldades. Abre sua casa, sua família, seu coração.

Vocês começam a se encontrar mais vezes – é, de novo. Você promete que NÃO VAI SE APAIXONAR. Mas aí um dia, você está deitada no sofá dele, apoiado no peito dele, olhando para os olhos DELE e você sente aquele embrulho no estômago que diz “É, minha filha.. você tá nessa outra vez”

Dessa vez você não precisa dizer para ninguém que é diferente, afinal.. você nem quer assumir que é diferente. Você finge pra si mesma que não é. Você foge dos outros caras, procura ele em todos os rostos que você vê. E nada.

Ele fala que você é ABERTA demais, sabe? Que você é disponível demais, sabe? Que você não é transparente, sabe? E você pensa “Porra, outra vez não.. por favor”
Aliás, você pensa “Dessa vez não, por favor..”

Dessa vez não, porque dessa vez você tá apaixonada. Você não tá procurando um namoro. Você só quer ele.

Qual é o problema comigo OUTRA VEZ? Eu sou aberta demais? O que eu faço, eu me fecho? Eu não sou transparente, no que diabos eu MENTI?

Ele não te diz.

Você se afoga na sua cama porque você tá cansada demais para discutir. Seus remédios para dormir não fazem efeito e você deseja esquecer que conheceu ele um dia. Mas não esquece.
“Se eu descobrir, vai adiantar alguma coisa?” você pergunta.

“Não sei” ele responde.

Você sabe que não. Você sabe que acabou aquilo que nem havia começado. Você sente aquele mesmo aperto no coração. É, talvez não seja para ser.

“Relaxa amiga, ele quem está sendo um babaca.. ele não te conhece” suas amigas te falam.

Mas será? Será que não sou eu?

Você resolve deixar pra lá. Sem ideia alguma do que diabos você pode fazer agora.

O problema sou eu por ser real demais? 

 

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19 anos de muita história para contar, autora do blog duzentaslinhas.com.br, residente do país das maravilhas e escritora nas horas vagas - nas outras também. Geminiana, sonhadora, avoada, estudante de psicologia, especialista em matérias impossíveis e completamente apaixonada por pessoas, flores e tudo que há de belo no mundo. Acredita em fadas, sereias e em um amor que cura todos os males. Quer conversar comigo pelas redes sociais? Fácil, só me chamar em @duzentaslinhas  Ou quer desabafar secretamente? Me chama no snap duzentaslinhas ou pode me mandar sua história pelo e-mail duzentaslinhas@gmail.com (juro que sou boa em conselhos)  

É impressionante como a vida tem essa coisa maluca de nos direcionar silenciosamente para certos lugares obscuros sem que a gente sequer perceba. Eu me torturei como um maluco preso em uma solitária, eu criei histórias na minha cabeça tão perfeitamente narradas que meu corpo acreditava que realmente haviam acontecido. Eu vesti a mesma máscara tantas vezes que acreditei que aquela era veridicamente a minha face. A face de alguém feliz, de alguém completamente resolvido. Escondi tão fundo meus monstros que ninguém foi capaz de encontrá-los, apenas eu, que os ouvia gritando todas as noites sem conseguir dormir no meu quarto. E como toda situação forçada, aquilo ficou insustentável, e eu tive que ceder!

Internalizar culpas, desejos e angústias é a maior cilada de todas. É uma mutilação diária, tentando se convencer de que você é um personagem fictício, uma marionete que tem os movimentos totalmente previsíveis. Só que não é assim que as coisas funcionam, as pessoas são imprevisíveis, o amor então… Eu vi a chuva caindo e chorei compulsivamente, sabendo que ninguém me ouviria. As lágrimas saiam tão naturalmente de mim, há tanto presas de propósito, que meu corpo não sabia reagir, ainda estava domado pela ideia de que estava tudo perfeitamente bem!

Lembro que abracei meu melhor amigo e tive forças para contar pela primeira vez a alguém. Minhas mãos tremiam e eu balbuciava, mas ao mesmo tempo era uma ótima sensação compartilhar aquilo, por para fora, me expressar, ver que alguém estava ali por mim. Hoje sei que é impagável o valor de um bom amigo. Ainda passei longos dias em estado de choque, de repente todo mundo sabia quem eu realmente era, e mesmo que sem entender o que acontecia comigo, muitos juravam saber exatamente o que era, e criticavam, julgavam e apontavam um dedo moralista e sem conhecimento algum.

A gente corre o risco de ser excluído ou mal visto pelas pessoas, chama-se vida! O bom é que a gente aprende que não está aqui para agradar ninguém que a gente não queira, a vida é tão curta e a gente não é obrigado a escolher certos caminhos só por que alguém ou um grupo diz que assim deva ser. Hoje estou tão leve comigo mesmo, com essa sensação de poder começar de novo, de resgatar meus velhos sonhos, de tentar continuar lutando por tudo aquilo que sempre me foi tão importante que já nem me importo com os olhares de julgamento e os fiscais de plantão.

 Quem é você?

 Quantos personagens existem dentro do seu corpo?

 Quanto que as pessoas, a sociedade e certas situações influenciam você a ser quem você não é de verdade?

 Vamos garantir que a vida seja vivida sem máscaras, isso inclui a empatia por quem ainda não deixou a sua própria cair. Tão feio é apontar o dedo que suspeito que seja um tipo de máscara também, uma ligada à ignorância talvez, ou a falta de empatia… Quem sabe ambos! Vamos viver, que a vida é agora!

 Afinal, quem é você?

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24 anos, engenheiro civil por formação e escritor por paixão. Adora uma boa leitura, séries e filmes. Exagerado, admirador do cotidiano e péssimo escritor de perfis.