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Eu só queria dizer que eu te entendo.

Eu entendo seus medos, sua insegurança e receios, sua falta de jeito, sua ausência ressentida e seu afeto trancado. Eu entendo, porque por trás desse sorriso aberto que eu dou quando chego nos lugares há uma armadura tão forte e tão dura que eu faço questão de vestir antes de sair de casa para casos como esses. Casos de sintonia. De coincidências – as quais reluto, mas não acredito.

Eu entendo porque, senta aqui e assume pra mim… estamos perdidos, não é? Perdidos nos bares, entupidos de porcarias que nos deem uma fuga da realidade, atuando em restaurantes com companhias desagradáveis que a gente finge gostar pra transar. Eu entendo a tua tristeza e a questão que fazes de manter distância.

Eu entendo porque somos apenas humanos, frágeis e errantes, consumidos pelas aparências, contagiados pelo vírus da carência, desiludidos sobre sentimentos, afogados em egos. Humanos cheios de incertezas e desacreditados num mundo cheio de gente que não vale a pena.

Mas eu entendo principalmente o teu sufoco. Porque é sufocante, sim. É sufocante fingir o tempo todo que não se importa, que não sente falta de carinho, que amor é coisa de adolescente. É sufocante chegar em casa, sozinho, tirar a armadura e ter que lidar com todos os pensamentos evitados durante o dia, porque agora é você, seu travesseiro e sua consciência. É sufocante lidar com tudo que há dentro da gente e que não tem nome.

E, se eu te entendo tanto e tão bem, porque você não liga, não aparece na minha porta com um combinado de sushi, com a sua melhor camisa me convidando pra dançar, com uma flor de plástico que foi tudo que deu pra comprar na vinda pra cá que foi decidida no impulso? Seria você alguém igual à mim, que não demonstra por medo do julgamento, que finge desapego pra não se mostrar tão vulnerável, que não procura porque vive o eterno jogo do charminho e acaba assim perdendo pessoas e vivências que poderiam ser os finais felizes que tanto procuramos?

Porque se for, meu amor, segura a minha mão e escuta: eu só queria dizer que eu te entendo.

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Rossely Rodrigues, atende por Secéu desde que se conhece por gente. Gaúcha, geminiana que não sabe se acredita em signos, formada em Letras Português Inglês pela FURG, escritora amadora - com muito amor, mesmo! 25 anos de muita história pra contar e outras que é melhor deixar pra lá.

Uma pessoa parada olhando para o seu celular. Abrir e fechar a janela daquele contato no Whatsapp. Tem cena mais ridícula?

Quem nunca?

Quem nunca foi a pessoa que não permaneceu? A que falou da boca pra fora, a que disse que ia e não foi, a que achou que era melhor se proteger, a que construiu um muro ao invés de uma ponte?

Quem nunca foi a pessoa que fica abraçada no travesseiro ouvindo Los Hermanos e tentando entender o que se passa na cabeça da pessoa que partiu sem muitas explicações – muitas vezes, nenhuma. Quem nunca encheu a cara e o celular funcionou como arma, matando o seu amor próprio e garantindo a piada no grupo no dia seguinte, pra reforçar sua vergonha? Quem nunca passou o dia com o coração apertado, repetindo mentalmente o velho mantra “vai passar” e até passar o chororô vinha a cada choque de realidade que dizia “cara, já era”?

Todo mundo já jogou nos dois campos. Já foi a pessoa que partiu sem olhar pra trás e já foi a pessoa que ficou sentada no degrau da escada tragando um cigarro pra disfarçar o azedume da boca observando a partida. Acontece que reciprocidade é lindo, mas não se aplica ao amor…

A gente pode ser reciproco no tratamento respeitoso, na consideração, no cuidado de não magoar quem dorme e acorda pensando na gente, mas a gente não pode amar o outro somente porque ele nos ama. E isso é de uma tristeza imensurável. Isso é o dilema da vida de todo mundo, sem exceção.

É uma equação que nem sempre fecha. Fazer o quê? Pra isso existe o blues, o sertanejo universitário, as garrafas de Smirnoff e Heineken. As de vinho já pedem companhia afetiva e voltaríamos a olhar o celular e fechar e abrir a janelinha do Whatsapp.

Quem nunca?

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Rossely Rodrigues, atende por Secéu desde que se conhece por gente. Gaúcha, geminiana que não sabe se acredita em signos, formada em Letras Português Inglês pela FURG, escritora amadora - com muito amor, mesmo! 25 anos de muita história pra contar e outras que é melhor deixar pra lá.

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Só hoje, eu já te quis mil vezes, e ainda é de manhã. Só hoje, eu já respondi mais de 13 e-mails e, entre uma frase e outra, meu pensamento voou: aonde será que ele anda? Só hoje eu já atendi mais de 20 pessoas aqui no trabalho, eu já distribuí sorrisos de bom dia, já senti fome, já tomei água e duas xícaras de café – não que eu precise acelerar o coração ou perder o sono, isso você já faz muito melhor que qualquer cafeína. Só hoje, como num replay dos outros dias da semana, eu já olhei o celular 3 vezes esperando sua mensagem no whatsapp, seu bom dia, seu mísero oi que já torna tudo mais belo e faz meu estômago comprimir e soltar 36 vezes em 1 segundo.

Só hoje eu já pedi pra um Deus no qual eu nem sei se acredito pra que você ficasse. Só hoje eu já fracassei nos meus pequenos problemas do dia a dia várias vezes e tá tudo bem, porque acho que você vem me ver e só isso já espanta toda a tristeza persistente e o caos do mundo passa a não importar mais. Só hoje eu já me descompensei mais de dez vezes e pedi pra você segurar meus excessos, perdoar o drama, desfazer o bico, desamarrar a cara – a minha e a sua. Cadê aquele abraço que junta todos os pedacinhos quebrados dentro de nós?

Só hoje eu já perdi a paciência, a noção do tempo, o rumo e o prumo, mas tô me esforçando de um jeito inimaginável pra não perder você de vista por aí. Só hoje eu já vi uns 22 links de notícias e piadas que adoraria mandar pra você porque, ao lê-los, você colocaria no rosto aquele sorriso que faz a maldade do mundo sumir por uns instantes. Não desiste de mim, não. Não leva tão à sério as minhas perguntas, nem as minhas respostas. Aprende a lidar com as minhas palavras, eu juro que vou me esforçar pra compreender os teus silêncios. Mas enquanto houver amor, deixa ser eterno. Enquanto for eterno, vive o hoje comigo. Amanhã a gente se reinventa, se desconstrói pra construir de novo, se ama como nunca e como sempre. Mas amanhã é outro dia e a gente cuida do amanhã, amanhã. Eu te amo hoje. Vem, só hoje.
 

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Rossely Rodrigues, atende por Secéu desde que se conhece por gente. Gaúcha, geminiana que não sabe se acredita em signos, formada em Letras Português Inglês pela FURG, escritora amadora - com muito amor, mesmo! 25 anos de muita história pra contar e outras que é melhor deixar pra lá.

Mas afinal, o que é que ele tem? Com esse jeans surrado, uma cara de poucos amigos que se desfaz no primeiro sorriso – aquele que quebra rochas – e um palavreado quase juvenil  que ás vezes surpreende, ele apareceu. Não bateu na porta, mas com o atrevimento que lhe é peculiar, adentrou. Sentou, tirou o chinelo e colocou os pés em cima da mesinha de centro da sala. Que papelão: me deixar paralisar por um garoto, tão mais homem que tantos homens de 30 e poucos anos, com uma pureza de criança que contrasta com uma malícia que ele carrega no canto da boca. É quando ele sorri que o mundo desaba.

Algumas amigas me indagam: “o que é que esse carinha tem, hein?”, e eu respondo que não sei, completamente desarmada. Eu cheia de teorias, eu cheia de ideias, eu que tenho a resposta na ponta da língua pra perguntas que ainda nem me foram feitas, sucumbi. Eu não sei como me deixei encantar de forma tão estúpida e avassaladora. Eu que a cada vez que ele me toca, antecipo os fogos do Reveillon dentro de mim, apesar do coração pulsar no ritmo da bateria da Mangueira e o prédio inteiro parece tremer no balanço dos nossos quadris.

Bem se sabe que o amor não tem lógica, nem sentido, só faz sentir. Sabe aquela música que fez Renato Russo balançar multidões? Não existe razão pras coisas feitas pelo coração mesmo, e quem balança agora, sou eu. Chego a ter sonhos indecentes com toda a falta de coerência, faço poesia com teus sons, faço cena com nosso ciúme, flerto com a tua lembrança e faço amor com a tua presença, sempre como se fosse a última vez e sempre com o gosto e a estranheza da novidade. Esse sentimento é uma confusão boa, uma bagunça sadia.

O que é que ele tem que fez ninar minha vontade de chegar com o sol junto de amigas embriagadas e noites fantásticas e acendeu em mim o mais doce desejo de dormir entrelaçando coxas e despertar com cuidado pra não acorda-lo? O que é que ele tem que quando deixa minha cabeça cessar naquele colo me faz ter vontade de parar o tempo? O que é que ele tem que me faz sentir patética, que me dá frio na barriga ao olhar o Whatsapp, que me permite ser tão piegas, que me faz ouvir música lenta e tomar vinho com formigamento no peito? Não sei, mas pra me consolar eu lembro que perguntei pra ele porque que ele demorava tanto aqueles olhos nos meus e ele disse não ter respostas pras minhas perguntas, então ficamos juntos, permanecemos aqui, constantemente apaixonados nessa dúvida, nesse doce não saber.

Vai ver o amor é isso: uma dúvida confortável, uma certeza inquietante, uma falta de sentido cheio de sensações, uma perda de sensatez completamente lúcida, uma loucura repleta de mansidão. Um monte de clichês que nunca parecem traduzir o que exatamente se sente. Um grito que silencia a casa, uma cantoria no chuveiro, um tanto que não me cabe e me transborda. A próxima vez que me perguntarem o que é que ele tem eu respondo sem pudor que não sei, que não me interessa saber, porque sentimento não precisa de perguntas, respostas ou razões. Sentir é o suficiente.

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Rossely Rodrigues, atende por Secéu desde que se conhece por gente. Gaúcha, geminiana que não sabe se acredita em signos, formada em Letras Português Inglês pela FURG, escritora amadora - com muito amor, mesmo! 25 anos de muita história pra contar e outras que é melhor deixar pra lá.