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Provavelmente já te ofereceram em alguma mesa de bar a cura pra uma grande chaga da humanidade. Não estou falando de nenhuma doença terminal, transtorno psicológico ou alergia alimentar, mas de amor. Basta começar uma conversa com “acho que tô apaixonada” que imediatamente alguém diz ter a solução pro seu dilema. Seja ela mais uma dose de tequila ou uma noitada cheia de pessoas dispostas a descobrir o mundo, mas sem a menor vontade de conhecer alguém a fundo.

É o perigo por trás da filosofia do “copo sempre cheio e o coração vazio”, que diz ser mais legal ter um coração gelado do que um habitado e que vem matando as borboletas do nosso estômago com tanto inseticida, que mais hora ou menos hora elas entrarão em extinção. Como se em um mundo onde tudo ganhou a obrigação de ser instantâneo, o amor fosse o verdadeiro problema e não a falta dele.

Passamos a acreditar que todo mundo é obrigado a ficar feliz com transas de meia hora, às vezes seguidas de uma mensagem apática de Whatsapp e outras vezes nem isso. Que nossas línguas podem tocar inúmeras outras, falar quantos idiomas for possível, mas jamais podem dizer “eu te amo”.

Algo mais ou menos assim: quem se apaixona é brega, fraco e demasiadamente carente, mas quem não está disposto a isso é o ser humano de gelo mais moderno e descolado da Via-Láctea.

O desejo de estar com alguém chega ao ponto de ser reprimido, já que o fato dele existir parece estar atrelado à perda de uma solidão transvestida de liberdade, que poucos sabem reconhecer a diferença.

Pra mim, ser realmente livre é o mesmo que podermos fazer nossas próprias escolhas, ainda que isso signifique optar por se apaixonar diariamente pela mesma pessoa ou por pessoas diferentes. É o direito de mantermos nossas relações pelo tempo que desejarmos, de chama-las de relações, de tratarmos sem indiferença alguém para quem também não desejamos ser indiferentes.

Trocarmos salivas e confidencias. Dividirmos a cama e experiências, antes de nos tornarmos a geração que aprendeu a mandar nudes, mandar à merda, mas que não é apta a mandar uma mensagem que diz “é com você que quero ficar”.

E se isso for ajudar, aceite minha absolvição pelo crime de querer ser feliz ao lado de alguém. A partir de agora está permitido planejar aquele final de semana fora da cidade que você tanto deseja, fazer ligações intermináveis só pra contar como foi seu dia, mandar mensagens a hora que você bem entender e permitir-se se envolver.

Se apaixonar de verdade pode ser a coisa mais gostosa do mundo, que você está deixando de viver por medo do que vão pensar de alguém, que na verdade só preferiu arriscar a vaga possibilidade de se machucar diante da infinita chance de aproveitar a verdadeira liberdade, que é poder amar sem ter vergonha.

Exalar frieza e impedir seu coração de bater não é sinal de força, está mais para a tentativa de reproduzir a morte enquanto há vida. Enquanto a vida te traz a oportunidade de não desperdiçá-la.

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RP pós-graduanda em Psicologia, mãe de gato apaixonada por dança, escritora e viajante entusiasta. Dorme só quando sobra tempo, mas sonha o tempo todo.

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Dos muitos mitos atuais sobre como se comportar em um relacionamento, o de que é mais simples colocar um ponto final em tudo apenas desaparecendo, talvez seja o mais cruel.

É claro que todos nós já fizemos isso um dia ou pelo menos cogitamos fazer. A ideia de ter que explicar pra alguém que o interesse morreu quase tão rápido como surgiu é assustadora, principalmente porque entramos no dilema: e se eu falar e me arrepender? Sumir, por sua vez, deixa sempre uma porta aberta ou pelo menos uma janela. Nem que seja a de conversa no Facebook, para que você ironicamente mande um “e aí sumido” naqueles dias em que a saudade bater.

Mas e o outro? Em algum momento paramos para pensar nele quando decidimos que vamos nos mudar para o reino onde habitam as tampas de caneta BIC, isqueiros e personagens da Caverna do Dragão? Até que ponto o que para alguns é conveniente, para outros é apenas covardia?

Ninguém é obrigado a ficar com ninguém quando não há mais vontade e jogar a real pode parecer um equívoco, principalmente quando trata-se de uma história mais curta do que as pernas das mentiras que pensamos em contar, na tentativa de escaparmos ilesos. Entretanto, quando somos o outro lado da moeda, aquele que é deixado para trás sem “o quê dos quais e poréns”, entendemos que errado mesmo é ignorar que uma atitude como esta pode afetar a outra pessoa de uma maneira muito mais negativa do que falar a verdade.

Estamos acostumados a procurar sempre o caminho mais fácil e se focarmos somente nisso, desaparecer é de fato a melhor solução diante de um relacionamento fadado ao fracasso. A mais fácil e mais desumana também.

Quem parte deixa sempre uma parte de si para trás e se isso for feito sem ser comunicado, o pedaço que ficará será o da dúvida. Se nós mesmos passamos dias a fio tentando entender o que motiva um ser humano que parecia estar apaixonado a ir embora de uma hora para outra, o que nos leva a acreditar que quando agimos dessa forma, não somos o motivo de indagação de alguém?

Falar “não quero mais” é se importar. Significa que você não deseja para o outro aquilo que não gostaria que fizessem com você, simples assim.

A busca por respostas é sempre muito triste. Ela nos faz perder tempo, dificulta a aceitação e abre espaço para a criação de hipóteses que pelo “se” e pelo “se não”, nunca serão comprovadas.

Portanto, antes de pensar em ser o mestre dos magos da vida de uma pessoa, lembre-se de que amanhã alguém pode ter o mesmo papel na sua história. Ao invés disso, tente escrever os finais. Abuse dos pontos e das conclusões, use a coragem e a empatia que você guarda em si, já que as duas nunca saem de moda.

E assim, quando já não puder somar, escolha diminuir o sofrimento e os questionamentos, dividir o peso do fim e multiplicar a sinceridade.

No amor, assim como na matemática, 1+0 não resulta em dois. Mas 1+X será sempre uma equação, ou melhor, uma história mal resolvida.

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RP pós-graduanda em Psicologia, mãe de gato apaixonada por dança, escritora e viajante entusiasta. Dorme só quando sobra tempo, mas sonha o tempo todo.

Vamos começar com o fato de que se nem verbo é. De acordo com a análise morfológica é uma conjunção subordinativa condicional. Confuso, né? Imagina então que na análise psicológica ele pode significar arrependimento e perda de tempo.

Se eu tivesse agido de outra forma, se tivesse corrido atrás, aceitado o outro como ele é. Se não tivesse brigado tanto, errado tanto, falado tanto, sido mais eu ou talvez menos eu.

Cada um de nós vive com seus próprios e se’s acumulados de histórias com um ponto em comum: o desejo de que fossem diferentes. Mas o fato é que nunca saberemos o que seriam delas se não tivessem sido exatamente o que foram.

Viver se baseando em possibilidades é perder no presente a chance que você tanto deseja de fazer algo dar certo, por achar que ela foi desperdiçada no passado. Continuar agindo assim é a melhor forma de transformar a vida em um eterno círculo vicioso da dúvida.

Ao invés disso, encare-a como um ciclo que, tal como, é feita de começos e fins, erros e acertos, algumas portas que se fecham e outras que se abrem. Nem todo relacionamento é feito para durar cinquenta anos e nem todo grande amor parar ser eterno. Em ambos os casos o único erro cometido é o de se achar responsável pelo fracasso de sua finitude e deixar que isso te impeça de seguir em frente, já que aquilo que foi feito pra dar certo vigora, independente de qualquer coisa que a gente faça.

Por isso, viver de e se pode ser tão perigoso. Duas palavras pequenas que carregam um peso enorme, que é o da culpa que não deveria existir, já que em toda decisão está contida uma consequência.

Sendo assim, se as coisas tomaram um rumo diferente do que você esperava, basta acreditar que o melhor está por vir e conviver com o fato de que nem sempre é possível mudar isso.

Um rio que não desemboca no mar pode encontrá-lo quando evapora e se torna chuva, o que prova que os caminhos que levam onde vamos chegar são muitos e a escolha de percorrê-los ou não é só nossa. O que não dá pra fazer é ficar parado remoendo o que já passou ou tentar andar pra trás até encontrar o tropeço que mudou sua rota.

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RP pós-graduanda em Psicologia, mãe de gato apaixonada por dança, escritora e viajante entusiasta. Dorme só quando sobra tempo, mas sonha o tempo todo.

Foi-se o tempo em que jogar para esquerda e para a direita dizia respeito a uma coreografia de axé dos anos 90 e não a um método para conhecer pessoas.

A dinâmica é simples. Tudo o que você precisa é ter um Smartphone com conexão à internet e a mágica está feita. Aplicativos que oferecem pessoas em formato de um punhado de fotos e uma descrição de poucos caracteres.

Essa facilidade pode ser vista como superficialidade para alguns. E de fato é, já que todos nós somos bem mais do que aquilo que mostramos online. Entretanto, qual a diferença entre conhecer alguém assim e em uma balada, por exemplo? O que atrai em primeiro lugar não é a aparência? Ou você já chegou em alguém porque tinha cara de quem teria um bom papo, interesses em comum e um diploma de PhD?

Se pararmos para pensar, as pessoas que usam o Tinder, o Grindr e afins são as mesmas que nos rodeiam em bares, livrarias, ruas, trabalho, etc. Não existe uma terceira dimensão com seres exclusivamente criados para dar match com você. Ou seja, conhecer alguém em um app, não quer dizer nada além do fato de que você e essa pessoa usam o mesmo recurso e foram combinadas por uma série de algoritmos.

Sejamos honestos com nós mesmos. Se substituímos uma ligação para o delivery pelo iFood, a espera na fila do caixa pelo Internet Banking e ainda assim continua sendo a mesma pizza ou o mesmo banco, o que nos leva a acreditar que nos aplicativos de relacionamento não são as mesmas pessoas? Aliás, o que faz com que nos esqueçamos de que elas de fato são pessoas?

Pense nas mensagens não respondidas ou nas enviadas com o intuito de ofender. No descombinar sem motivos ou nos diálogos e encontros que nunca vão acontecer, pelo simples fato de você ter transformando um ser humano em um número. Seria diferente se você encontrasse essa pessoa na fila da padaria? Por que dessa forma ela teria mais valor?

É claro que nem tudo são flores. Esse tipo de serviço nos traz uma falsa ideia de proximidade e de intimidade. É preciso esforço para transformar o raso em profundo, mas nada que não tenha que existir também em uma relação que comece de qualquer outra forma.

Portanto, o problema não está no “Tinder”, está na forma como ele é utilizado. Em como limitamos as nossas possibilidades, quando categorizamos as pessoas em para namorar e para transar, para ter algo passageiro e para viver um relacionamento duradouro, para dividir uma mesa de bar e para compartilhar as coisas da vida.

É aquela coisa: se organizar direitinho todo mundo transa… Todo mundo namora, todo mundo ama. Afinal, se o amor está no ar, significa que ele pode ser aspirado quando você cruzar com seu futuro par em um semáforo ou transmitido através das ondas do wi-fi, por que não?

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RP pós-graduanda em Psicologia, mãe de gato apaixonada por dança, escritora e viajante entusiasta. Dorme só quando sobra tempo, mas sonha o tempo todo.

Nem sempre um relacionamento acaba assim que chega ao fim. Parece algo controverso, eu sei. Mas na prática funciona assim. A gente precisa deixar alguém ir, mesmo que essa pessoa já tenha partido há algum tempo.

Não é fácil se livrar do dia para a noite de uma parte do outro que ficou em nós e mais difícil do que isso é abrir mão daquele pedaço da gente que parece pertencer mais ao que passou do que ao que sobrou.

Entretanto, difícil ou não, são esses os primeiros passos que damos para seguir em frente e poder direcionar toda a força que mantem o outro vivo para tentar enterrá-lo de vez.

É preciso entender que remoer lembranças não tem o poder de trazer ninguém de volta, mas é capaz de transformar o tempo em pó, ao ponto em que aceitamos viver um presente em meio à ausência de nós mesmos. Tentar transformar a saudade em nostalgia e assim, trazer à tona as memórias dos momentos juntos com carinho e não com uma dor impossível de ser superada.

Compreender que sentir a falta de alguém diz mais a respeito de como costumamos lidar com nossas perdas do que com a ausência de quem já não é mais rotina. E que encontrar culpados é só a coisa mais fácil a fazer nesses casos e a que temporariamente estanca melhor os ferimentos, mas que o que pode realmente curá-los é aceitar que ninguém tem culpa pelo que deu errado.

Infelizmente (ou não) somos incapazes de esquecer alguém. Ninguém sofre de amnésia pós-término e não é isso que precisamos fazer. O segredo nesses casos não consiste em apagar memórias, mas em ressignificá-las. Entender que cada história é exatamente o que tem que ser e sentir gratidão por todo o aprendizado que ela trouxer.

Quando alguém está se afogando e começa a se debater, só afunda cada vez mais. E é assim metaforicamente também. Lutar contra fatos não é capaz de muda-los, mas pode deixar nosso coração exausto a ponto de sucumbir à mágoas e ressentimentos.

E sofrer em vão uma hora cansa. Principalmente quando nossas mãos estão atadas e não há mais nada que possamos fazer para transformar passado em futuro. Nesses casos é mais sábio lutar pela nossa própria felicidade e torcer para que alguém com quem já fomos felizes um dia, seja genuinamente feliz também, ao seu modo. Afinal, ver o outro como um ser capaz de dar amor, mesmo depois de tudo o que passou, já é a maior prova de que vivemos realmente valeu a pena.

Enfim, deixar alguém partir não significa abrir a porta ou comprar para tal uma passagem só de ida. Nem falar da boca pra fora que quem já foi tão importante já não tem mais importância.

Não se trata de permissão. É questão de aceitação.

Deixar o outro ir não muda em nada a vida dele, mas transforma totalmente a nossa. Permitir que alguém fique como uma sombra, ocupa um espaço que pouco a pouco começa a fazer falta. E sabe, o coração também obedece aquela lei da física que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.

Por esse motivo e porque enxergamos que amarmos quem somos é o equivalente a não querermos viver presos a algo que nunca mais vai voltar é que abrimos mão de um sentimento que não serve mais pra nada, além de nos fazer sofrer. Só assim é que podemos enfim, preenchermos o que ficou vazio e voltarmos a morar dentro de nós mesmos.

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RP pós-graduanda em Psicologia, mãe de gato apaixonada por dança, escritora e viajante entusiasta. Dorme só quando sobra tempo, mas sonha o tempo todo.