Eu preciso confessar que seu sorriso me deu onda sim, sua presença me entorpecia e me fazia sentir completamente dependente de ti. Achei que não precisava mais de nada, só de você. Se eu pudesse, teria me enrolado, enroscado e me grudado em você. Achei que eu te amava e que esse amor seria suficiente e supriria todas as outras necessidades.

Que burrice, rapaz.

Você nunca foi capaz de suprir nada e nem deveria. Eu sempre fui uma mulher independente, resistente e que sabia cuidar muito bem do próprio nariz. Mas é aquela velha história, né? Se você não tem alguém com quem dividir sua cama de casal, então você não é bem sucedida. Eu acreditei nessa baboseira, mesmo que meu sorriso fosse muito mais largo do que o seu um dia foi. Acreditei que meus sonhos, minhas metas e todas as minhas realizações eram pequenas perto da obrigação de ter alguém pra dormir de conchinha.

Por isso, você apareceu. Seu cabelo desgranhado, sua fama de desleixado e todas aqueles pensamentos malucos de revolucionar me fizeram acreditar que talvez você fosse o cara certo. Te imaginei de terno no altar, acredita? Pois é, guri, nem eu. Eu que nunca havia nem pensado em comprar um vestido de noiva, me vi fuxicando revistas em busca de inspirações pra esse casamento que nem ia acontecer.

Você dividiu as contas comigo. Mas na verdade, eu nunca nem precisei de alguém pra isso. Você me fez acreditar que sua vida de solteiro havia parado em mim. Me fez acreditar, assim como todos os outros, que eu precisava me portar de outra forma também. Me pediu pra parar de dançar até o chão, jogou fora meus vestidos coloridos e me impediu de usar meu batom vermelho preferido. Se tornou o perfeito babaca que todos esperavam que você fosse se tornar.

Começou a pensar em alianças também, mas nem era porque queria dividir a vida comigo não, era porque queria marcar seu território. Começou a notar que o mar não combinava tanto assim contigo, que as ondas eram perigosas demais pra um cara como você e que o violão também não lhe pertencia mais. Achou que sua banda de garagem era coisa de adolescente deprimido, resolveu ouvir sua mãe, que queria que você fosse um engenheiro. Achou que me amava, não foi? Pensou que esse amor supriria todas as outras necessidades.

Que burrice, rapaz.

Nós tivemos uma paixão intensa, daquelas bem insanas com uma música eletrônica de fundo. Nós nos beijávamos como se pudéssemos explodir um mundo inteiro dentro de nós dois. Era uma atração tão forte, que eu não me imaginava em outro lugar mais seguro do que os seus braços. Nós curtimos os amigos, as festas e aquelas noites inacabáveis na sua cama de solteiro na casa dos seus pais. Nós vivemos até que paramos de viver. Você deixou de achar meu cabelo tingido tão atraente, começou a achar que meu trabalho não era tão profissional assim, começou a implicar com as amigas que não namoravam e resolveu que nosso relacionamento feliz precisava de regras.

Que burrice, rapaz.

Mas não culpo você. Eu também achei que precisávamos mudar tudo,  inclusive a minha casa. Achei que você podia ser um ótimo pai de família quando te aceitaram naquela empresa chique. Achei mesmo que minhas amigas solteiras deveriam procurar um cara com você. Você achava que seus amigos deveriam procurar uma mulher como eu. Culpa dessa sociedade louca que acha que tudo precisa de um rótulo. Dessa pressão absurda pra sermos o que não somos. Culpa nossa, em ter ouvido os outros, deixado de curtir nossa praia, sua melodia e meu cabelo rosa.

Criamos uma família despreparada que nunca deveria ter sido uma, até que acabou. Você não é mesmo um cara de negócios, seus sonhos vão além das fronteiras. Você sempre foi esse sujeito  de cabelo jogado e se você soubesse o quanto ficava gato, nunca teria cortado. Eu nunca fui uma mulher de poucos amigos. Eu gosto de conversar, de escrever, de sair por aí cantarolando de braços dados com as minhas companheiras de balada – ou melhor, de vida. Meus sonhos nunca se limitaram a ter alguém pra amar, até porque, eu amo bastante gente.

Meu fechamento nunca foi você, mozão. Você foi apenas um passageiro nesse trem louco que é meu coração. Você foi alguém pra compartilhar histórias, emoções e apenas uma cama de SOLTEIRO. Eu sempre fui meu próprio fechamento. Me perder nunca foi uma opção, até que me perdi.  Minhas metas vão muito além do que qualquer um imagina e eu sinto muito por ter deixado tanta coisa pra trás nessa caminhada torta. Eu não preciso de você, nem você de mim. Fomos apenas uma onda – baita de linda – que se quebrou.

Eu voltei a usar meu cabelo do jeito que eu gosto, meus vestidos coloridos ainda fazem parte do meu armário e eu descobri que ainda sou mulher suficiente pra escolher o que eu quero ou não viver. Ninguém aqui é obrigado a criar nada que não queira criar só porque a sociedade dita que é o certo. Meu padrão de felicidade nunca foi parecido com o dos outros mesmo. Então quer saber? Que se dane. Eu tô bem pra caramba, sabia? Adoro sair pra comer, jogar conversa fora e poder me esparramar no meu sofá com um pacote de biscoitos. E eu adoro o fato de poder pensar em você como um caso muito imperfeito que eu tive a honra de viver.

Você foi meu amor de rave. Mas a gente? A gente não se ama e nem se amava. Foi só isso. Que burrice a nossa de pensar que deveria ser mais do que era.

E ah, eu descobri que quero sim ter filhos um dia, me casar numa praia paradisíaca e acreditar na história de que existe uma alma gêmea *que não precisa ser tão parecida comigo* me esperando por aí. Eu descobri que eu quero SIM ter alguém pra dividir minha vida, mas aprendi com você, que só vou deixar isso acontecer quando eu dividir também o meu coração. Quando for espontâneo, quando for um desejo, quando eu notar que AMO aquele alguém que vai me amar como eu sou também.

E quer saber? Eu não gosto mais de você – nem você de mim – fazer o que? Resolvemos nos amar.

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20 anos de muita história para contar, autora do blog duzentaslinhas.com.br, residente do país das maravilhas e escritora nas horas vagas - nas outras também. Geminiana, sonhadora, avoada, estudante de psicologia, especialista em matérias impossíveis e completamente apaixonada por pessoas, flores e tudo que há de belo no mundo. Acredita em fadas, sereias e em um amor que cura todos os males. Quer conversar comigo pelas redes sociais? Fácil, só me chamar em @duzentaslinhas  Ou quer desabafar secretamente? Me chama no snap duzentaslinhas ou pode me mandar sua história pelo e-mail duzentaslinhas@gmail.com (juro que sou boa em conselhos)  

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