Mas afinal, o que é que ele tem? Com esse jeans surrado, uma cara de poucos amigos que se desfaz no primeiro sorriso – aquele que quebra rochas – e um palavreado quase juvenil  que ás vezes surpreende, ele apareceu. Não bateu na porta, mas com o atrevimento que lhe é peculiar, adentrou. Sentou, tirou o chinelo e colocou os pés em cima da mesinha de centro da sala. Que papelão: me deixar paralisar por um garoto, tão mais homem que tantos homens de 30 e poucos anos, com uma pureza de criança que contrasta com uma malícia que ele carrega no canto da boca. É quando ele sorri que o mundo desaba.

Algumas amigas me indagam: “o que é que esse carinha tem, hein?”, e eu respondo que não sei, completamente desarmada. Eu cheia de teorias, eu cheia de ideias, eu que tenho a resposta na ponta da língua pra perguntas que ainda nem me foram feitas, sucumbi. Eu não sei como me deixei encantar de forma tão estúpida e avassaladora. Eu que a cada vez que ele me toca, antecipo os fogos do Reveillon dentro de mim, apesar do coração pulsar no ritmo da bateria da Mangueira e o prédio inteiro parece tremer no balanço dos nossos quadris.

Bem se sabe que o amor não tem lógica, nem sentido, só faz sentir. Sabe aquela música que fez Renato Russo balançar multidões? Não existe razão pras coisas feitas pelo coração mesmo, e quem balança agora, sou eu. Chego a ter sonhos indecentes com toda a falta de coerência, faço poesia com teus sons, faço cena com nosso ciúme, flerto com a tua lembrança e faço amor com a tua presença, sempre como se fosse a última vez e sempre com o gosto e a estranheza da novidade. Esse sentimento é uma confusão boa, uma bagunça sadia.

O que é que ele tem que fez ninar minha vontade de chegar com o sol junto de amigas embriagadas e noites fantásticas e acendeu em mim o mais doce desejo de dormir entrelaçando coxas e despertar com cuidado pra não acorda-lo? O que é que ele tem que quando deixa minha cabeça cessar naquele colo me faz ter vontade de parar o tempo? O que é que ele tem que me faz sentir patética, que me dá frio na barriga ao olhar o Whatsapp, que me permite ser tão piegas, que me faz ouvir música lenta e tomar vinho com formigamento no peito? Não sei, mas pra me consolar eu lembro que perguntei pra ele porque que ele demorava tanto aqueles olhos nos meus e ele disse não ter respostas pras minhas perguntas, então ficamos juntos, permanecemos aqui, constantemente apaixonados nessa dúvida, nesse doce não saber.

Vai ver o amor é isso: uma dúvida confortável, uma certeza inquietante, uma falta de sentido cheio de sensações, uma perda de sensatez completamente lúcida, uma loucura repleta de mansidão. Um monte de clichês que nunca parecem traduzir o que exatamente se sente. Um grito que silencia a casa, uma cantoria no chuveiro, um tanto que não me cabe e me transborda. A próxima vez que me perguntarem o que é que ele tem eu respondo sem pudor que não sei, que não me interessa saber, porque sentimento não precisa de perguntas, respostas ou razões. Sentir é o suficiente.

1 comentário

Rossely Rodrigues, atende por Secéu desde que se conhece por gente. Gaúcha, geminiana que não sabe se acredita em signos, formada em Letras Português Inglês pela FURG, escritora amadora - com muito amor, mesmo! 25 anos de muita história pra contar e outras que é melhor deixar pra lá.

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  1. CarolResponder

    Sem palavras para este texto, vou apenas dizer UAL! 🙂